O 11º Mandamento: Não Comerás!

Cybelle  Weinberg*

Como afirma a historiadora Mary Del Priore, vivemos em uma sociedade lipofóbica, que odeia a gordura e os corpos gordos[1]. Bombardeados por centenas de dietas que prometem um corpo enxuto, nunca o pecado da gula foi tão “pecado” como hoje.

No entanto, a magreza e a abstinência alimentar, tão valorizadas nos dias de hoje, têm uma longa história na vida da humanidade. O jejum  como prática religiosa era comum entre alguns povos da Antiguidade e, com o advento do Cristianismo, adquiriu um caráter de mortificação e modo de alcançar as delícias do Paraíso.

Desde a época mais remota do cristianismo, o jejum autoimposto, tal como a castidade, foi recomendado como meio de salvação.

Tertuliano, no início do século III, defendia, além da continência sexual, os jejuns prolongados, que dariam à alma uma visão clara. O jejum era necessário, caso contrário “toda a habitação da pessoa interna fica saturada de alimento (…) um fluxo de pensamento que anseia por eliminar sua carga de excremento transforma-se em nada além de uma obsessão com o lavatório. Não lhe resta outra coisa senão passar daí para as ideias de concupiscência.” (Corpus Christianorum, 2:1261) E ainda: “um corpo emagrecido passará mais facilmente no portão do paraíso, um corpo leve ressuscitará mais rapidamente e na sepultura será melhor preservado.” (apud Vandereycken; Van Deth, 1994, p.15)

Jerônimo, líder espiritual de muitas mulheres romanas ricas no século IV, pregava uma vida de abstinência e orações. Entre suas seguidoras estava Eustóquio, nobre romana, filha de Paula (futura Santa Paula), a quem Jerônimo aconselhou: “Deixe suas companhias femininas, empalideça e emagreça com jejuns diários, digo com verdadeira determinação: Eu tenho o desejo de deixar velhos costumes e ser com Cristo.” (Bemporad, 1996). Blessila, a irmã mais nova de Esutóquio, aos 20 anos de idade, após ter enviuvado, foi também incentivada por Jerônimo a consagrar-se à vida ascética. Após quatro meses, no entanto, faleceu (em 383). Durante os seus funerais aconteceram tumultos, porque o povo atribuiu a morte da jovem à excessiva austeridade dos jejuns. (Dicionário Patrístico, 2002).

No final do século XII, o poema Os vermes da morte, de Hélinand de Froimont, citado por Le Goff (1994) atesta a preocupação constante dos cristãos com o destino do corpo:

“Um corpo bem alimentado, uma carne delicada,

é somente uma camisa de vermes e de fogo (os vermes do cemitério e o fogo do inferno).

O corpo é vil, fedorento e murcho.

O prazer da carne está envenenado e corrompe a nossa natureza.” (p. 146)

E Vieira, retomando no século XVIII o ascetismo dos Padres do deserto com o propósito de pregar a submissão aos pobres, ao comentar a pergunta Quo vadis?, recomenda:

“Mas porque não cuides que te quero consolar por outro caminho, responde-me: Para onde vais: Quo vadis? Vais para a sepultura? Sim: e todos os mais ricos e abundantes do mundo para onde vão? Para a sepultura também. Dá, pois, muitas graças à estreiteza da tua mesa, e ao teu pouco pão; porque sendo certo que todos hão de chegar á sepultura sem nenhum remédio; só tu por comer menos chegarás à sepultura mais tarde, e só tu por comer menos, serás nela menos comido. (…) Suposto, pois, que todos havemos de morrer, e todos irmos para a sepultura, o maior favor que Deus pode conceder a um mortal, é que morra e chegue lá mais tarde. E este é o primeiro privilégio dos pobres, a quem a Providencia Divina quanto nega de abundância e regalo, tanto acrescenta de vida. (…) E depois de chegados uns e outros à sepultura, têm também dentro nela alguma diferença? Sim: e muito grande, que é o segundo privilégio dos pobres. A gula assim como ceva as aves, para que as comam os homens, assim ceva os homens, para que os comam os bichos. Miserável condição da nossa carne, comer para ser comida!” (Sermão da Quarta Dominga depois da Páscoa, IX)                                                                                           

                                                  “Comer como um vigário.”

Porém, como lembra Leandro Karnal (2014), “que apenas os santos fossem magros!” (Ou os candidatos a santos, como nos mostram as histórias das santas jejuadoras…)

Diz ele:

“ Frades e freiras eram e são famosos pela boa cozinha. Mosteiros vendem compotas e pães com amêndoas até hoje. A imagem de um frade gordo e bom de copo acompanha o Cristianismo há muito tempo. (…) Comer como um vigário era expressão antiga para quem acompanhava o rito da mesa com uma satisfação enorme. E, em todos esses conventos onde as cozinhas não cessavam de produzir iguarias, imagens piedosas de santos magros e marcados pelo jejum adornavam as paredes. Que os santos sejam magros, nós cá na Terra nascemos para babar com travessas suculentas.” (p. 230 )

E ainda:

“ … mosteiros e conventos se tornaram centros culinários. Licores famosos, doces refinados, cervejas especiais e quitutes variados estavam, indelevelmente, associados a essas instituições religiosas.” (p. 224)

Karmal nos presenteia, também, com uma lista de nomes “meio religiosos e meio profanos”  de doces que podemos comer em Portugal: “barriga de freira”, “toucinho do céu”, “bolachas do Bom Jesus”, “ pastéis de Santa Clara”.

Se santos que ficaram famosos pelo jejum prolongado e pela abstinência alimentar deram nomes a iguarias tão maravilhosas, e se lugares destinados ao afastamento dos prazeres e tentações mundanas se sobressaíram pela produção de tantas delícias, como entender esse paradoxo em relação à comida?

Sem dúvida, a cena de um mosteiro adornado por imagens de santos cadavéricos, de cujas cozinhas exalava o cheiro do pão quente, do açúcar queimado e o perfume dos licores, nos remete às bancas de jornal de hoje em que, lado a lado, são exibidas revistas com capas de mulheres magérrimas que recomendam mil e uma dietas restritivas, ao lado de atraentes capas de revistas de gastronomia que, literalmente, nos tentam como os demônios de Santo Antão! Ou como aqueles que tentavam Santa Maria Madalena de Pazzi (1566 – 1607), grande jejuadora, abrindo gavetas e prateleiras quando ela passava pela despensa, exibindo seus “tesouros culinários” e seduzindo-a para interromper sua dieta de água e pão.

Diante de imagens tão apelativas e contraditórias, como nos manter no espaço da moderação?  De quanto esforço precisamos para a prática desta virtude, tão cara entre os gregos antigos?  Como não cair no excesso, tanto de um lado como do outro?

Tal como padres e freiras medievais lendo textos bíblicos durante as refeições para desviar a atenção do prazer da comida, nos vemos hoje lendo rótulos e contando calorias entre as gôndolas dos supermercados. E devolvendo para as prateleiras os mais saborosos, afastando com um vade retro Satana as mais deliciosas tentações!

                                                Referências bibliográficas

BEMPORAD, JR. Self-Starvision through the ages: reflections on the pré-history of anorexia nervosa. Int J Eat Disord. 1996;19 (3):217-37.

Dicionário Patrístico e de Antiguidades Cristãs. Petrópolis: Vozes; 2002.

KARNAL, L. Pecar e perdoar: Deus e o homem na história. Rio de Janeiro: Nova Fronteira;  2014.

LE GOFF, J. O imaginário medieval. Lisboa: Estampa; 1994.

SANTO AGOSTINHO. A cidade de Deus. Vol. II. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian; 2000.

VANDEREYCKEN, W. ; VAN DETH, R. From fasting daints to anorexic girls: the history of self-starvation. New York: University Press;1994.

VIEIRA, A. Sermões. Lisboa: Lello & Irmão; 1951.

[1] Del Priore, M. Prefácio. In: Weinberg, C. ; Cordás, T.A. Do altar às passarelas. Da anorexia santa à anorexia nervosa. São Paulo; Annablume, 2006.

*Psicanalista. Mestre em Ciências pela Faculdade de Medicina da USP e Doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Coordenadora Geral da Clínica de Estudos e Pesquisas em Psicanálise da Anorexia e Bulimia (CEPPAN). 

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