A mente que mente

Francy Ribeiro Moreira*

 

Resenha de Maria José Azevedo de Brito, Táki Athanássios Cordás, Lydia Masako Ferreira (Orgs.), Transtorno dismórfico corporal: a mente que mente. São Paulo: Hogrefe, 2019, 425p.

 

O TDC – transtorno dismórfico corporal – é um distúrbio complexo da imagem corporal que afeta a qualidade de vida dos portadores. Nesta obra densa, com uma completa referência bibliográfica, os autores descrevem o TDC sob um novo olhar de diferentes especialistas. O livro foi organizado por três renomados pesquisadores: Maria José de Brito, psicóloga, pós-doutora em Ciências pela Unifesp; Táki Cordás, médico psiquiatra, doutor pelo Instituto de Psiquiatria do HC-FMUSP e Lydia Masako, médica cirurgiã-plástica, doutora pela Unifesp e pós-doutora pela University of California. Estes organizadores convidaram outros trinta e dois profissionais das áreas de nutrição, psicologia e odontologia para enriquecer o trabalho. Há, também, a bela contribuição da poetisa Mariana Braga.

Esta obra é direcionada a pacientes e familiares, profissionais da área de saúde que desejam aprender a lidar com o TDC, um transtorno psiquiátrico facilmente confundido com excesso de vaidade, que provoca extremo sofrimento psíquico.

Dividido em quatro partes, a primeira versa sobre um completo histórico do TDC. Desde a década de 1970 o conceito estava incluído no CID-10 na categoria de hipocondria. Na última versão do DSM-5 de 2013 da APA (American Psychiatric Association), o TDC foi classificado na categoria dos transtornos obsessivos – compulsivos. Porém, com novos critérios específicos para dismorfia muscular.

Apesar de ser um transtorno comum, na prática é de difícil identificação. A prevalência de TDC na população geral é estimada em torno de 1% a 2 %, com ideação suicida em 57,8% dos pacientes. Trata-se de um quadro psiquiátrico grave e crônico.

Já a segunda parte trata da descrição detalhada de inúmeras preocupações dismórficas nas diversas especialidades médicas. Em catorze capítulos sobre a rinoplastia, o rejuvenescimento facial, abdominoplastia, cirurgia bariátrica, mamoplastia, entre outras são discutidas questões sobre a insatisfação e o sofrimento com o corpo. Textos muito bem escritos sobre como de fato identificar o transtorno dismórfico corporal em cada área, pois são pacientes que procuram sempre pelos tratamentos estéticos, pela perfeição corporal.

Na terceira parte são estudados os comportamentos repetitivos com foco no corpo, em especial o transtorno de escoriação e tricotilomania. Aspectos da psicopatologia, critérios diagnósticos, tratamento e as relações com o TDC são amplamente analisados. Outra importante questão é a da diferença do diagnóstico entre a transexualidade e o transtorno dismórfico corporal. Tudo abordado de forma clara, didática e ampla.

A quarta e última parte apresenta os tipos de tratamento utilizados para o TDC. Estudos mostram que tanto a intervenção farmacológica como a terapia cognitivo-comportamental e o tratamento psicanalítico são indicados. Do ponto de vista da psicanálise, a distorção de imagem é vista como uma manifestação sintomática, havendo uma estrutura clínica a ser analisada.

Já no último capítulo, os autores nos presenteiam com a descrição de três instrumentos específicos para pesquisa e identificação do TDC. Estes são: 1) A versão brasileira da Yale-Brown Obsessive Compulsive Scale Modified for Body Dysmorphic Disorder (BDD-YBOCS); 2) Escala de Sintomas da Dismorfia Corporal – Unifesp/EPM (BDSS-UNIFESP/EPM); 3) Versão brasileira do Body Dysmorphic Disorder Examination (BDDE).

Para finalizar, deixo aos leitores o deleite das argumentações de profissionais de diversas áreas. Esta obra é fundamental para reencontrar maior precisão diagnóstica e construir direcionamentos adequados à clínica do TDC. Uma referência para todos.

 

*Psicanalista, Mestre em Psicologia Clínica pela UNESP

Publicado em Resenhas