Adolescência, imagem corporal e sociedade

Camila Perez*

Nasio (2011) define a adolescência utilizando três abordagens complementares: biológica, sociológica e psicanalítica. Do ponto de vista psicanalítico, que é articulado aos outros dois, o adolescente tem um eu em formação que fica dividido entre “as pulsões que advém do corpo e um pensamento rígido que deseja reprimi-las” (p. 43). Deste modo, é um ser que, permeado pela contradição, busca um espaço social fora do círculo familiar por meio da adesão de ideais externos, principalmente advindos de seu grupo de colegas. Ainda segundo o autor, é nessa época que compreendemos “o quanto precisamos do outro para sermos nós” (p. 16).

Para Aberastury e Knobel (1989), a adolescência implica em dois lutos: pelo corpo infantil e pelos pais da infância. No primeiro, o adolescente precisa elaborar psiquicamente as mudanças de seu corpo e, com isso, a perda do que não volta mais. Este não é um processo isolado e independe do outro, de como este novo corpo é visto e de que sentidos são atribuídos a ele. O segundo luto refere-se à perda de referências conhecidas em relação aos pais. O adolescente não sabe mais o que esperam dele e qual papel ocupa na configuração familiar à qual pertence. Com isso, a adolescência se configura como um período de experimentação de novos papeis sociais, valores e identidades.

Já a imagem corporal pode ser entendida como a concepção subjetiva do nosso corpo para nós mesmos, ou seja, a nossa própria percepção e sensação corpórea. Seu desenvolvimento acontece por meio das relações que o sujeito estabelece consigo mesmo e com os outros (Campagna e Souza, 2006). Portanto, esta imagem é reconfigurada durante o período da adolescência, já que as relações tanto consigo quanto com os outros passam por mudanças desencadeadas pela puberdade que incidem no real do corpo.

Para pensar sobre o impacto que estas mudanças acarretam, é preciso contextualizar o que é ser um adolescente na sociedade em que vivemos, levando em conta a supervalorização do corpo nos dias atuais. Considerando-o como o lugar “onde se materializa a relação sujeito x sociedade” (Ferreira, 2008, p. 472), os códigos de conduta e padrões de comportamento, aceitos e valorizados socialmente, influenciam o comportamento dos sujeitos em relação aos seus corpos. Assim, a construção da imagem do corpo é atravessada pelo reflexo do individualismo, narcisismo, hedonismo e consumo – marcas da sociedade atual.

Uma vez que a indústria da estética é um dos maiores mercados de consumo, o corpo é transformado em um dos produtos mais valiosos neste momento histórico (Carreteiro, 2005). Baudrillard (1970) acrescenta ainda que o corpo torna-se ponte para a conquista de poder, status, felicidade e até de inclusão social. Para o autor, a beleza deixou de ser um atributo advindo da natureza, e assumiu a qualidade de “fundamental e imperativa” (p. 140). Os que não cumprem este ideal tendem a pagar um preço alto como consequência: exclusão social, sentimentos de fracasso e perda de autoestima.

Neste contexto, a mídia possui um papel fundamental na medida em que atua como meio de veiculação das expectativas sociais. Por um lado, divulga determinado corpo como o certo, causando sentimentos de inferioridade e marginalização aos que não o atingem, ou ao menos não se esforçam para isso. Por outro lado, atribui à conquista destes corpos uma responsabilidade pessoal, colocando o sujeito que não se adapta aos padrões como alguém que merece ser excluído. Considerando que a velocidade dos meios de comunicação impossibilita a capacidade de assimilação por parte dos receptores, torna-se preocupante a internalização de modelos desacompanhados de reflexão e tomados, portanto, como naturais ao sujeito.

Estas questões esclarecem a dificuldade de viver a adolescência, um momento já tão complicado e trabalhoso, em uma sociedade onde vigora a valorização patológica da magreza e o pavor de engordar. Não é difícil perceber por que a insatisfação com o próprio corpo torna-se uma característica marcante entre os adolescentes de hoje. Assim, a importância que o olhar do outro adquire neste momento da vida pode caminhar junto com o sofrimento, gerado em decorrência da desaprovação.

Referências

Aberastury, A.; Knobel. M. (1989) Adolescência Normal: Um Enfoque Psicanalítico. Tradução de Ballve, S. M. G. Porto Alegre: Artes Médicas.

Baudrillard, J. (1991) O mais belo objeto de consumo: O Corpo. Em: Baudrillard, J.  A Sociedade de consumo (pp.136-160) Lisboa: Edições 70. p. 136 – 160.

Campagna, V.N.; Souza, A.S.L. (2006) Corpo e imagem corporal no início da adolescência feminina. Boletim de psicologia [online]. vol.56, n.124, 9 – 35.

Carreteiro, T.A. (2005). Corpo e contemporaneidade. Psicologia em Revista, 11(17), 62-76.

Ferreira, F.R. (2008) A produção de sentidos sobre a imagem do corpo. Interface – Comunicação, Saúde, Educação, v.12, n.26, 471 – 483.

Nasio, J.D. (2011) Como agir com um adolescente difícil?. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

*Psicóloga e Psicanalista. Membro da CEPPAN. Membro da rede de atendimento psicanalítico do Centro de Estudos Psicanalíticos (CEP). Aprimoramento Multiprofissional em Saúde Mental.

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