Crônicas sobre a fome de amor

Francy Ribeiro Moreira*

Resenha de Fabiola de Clercq, Todo o Pão do Mundo: crônica de uma vida entre a anorexia e a bulimia. Andréa Aguiar e Musso Greco (tradutores). Belo Horizonte, Scriptum Livros, 2012, 128p.

Em outubro de 1990, Fabiola de Clercq publica na Itália seu primeiro livro, Todo o Pão do Mundo. Escrito em apenas dois meses, essa obra decorre de duas décadas de tratamento psicanalítico do seu sofrimento com a anorexia-bulimia. Uma autobiografia escrita em forma de crônicas revela a dramática posição de quem sofre com os transtornos alimentares. Essa surpreendente publicação fez emergir na Itália uma discussão aberta e honesta sobre doenças até então mantidas em silêncio ou na solidão de clínicas médicas e ambulatórios de psiquiatria. Audácia, bravura, ousadia e arrojo são algumas das características da autora.

Quando o lançamento de um livro culmina em ações como a fundação da ABA (Associação para o estudo da anorexia, bulimia e transtornos alimentares) em Roma, em abril de 1991, precisamos ficar atentos `a grande importância dos depoimentos pessoais que promovem mudanças numa sociedade. Até então, na Itália, as terapêuticas utilizadas para o tratamento de transtornos alimentares se reduziam a ofertas psicofarmacológicas e terapias cognitivo-comportamentais. Com a ABA promoveu-se a investigação psicanalítica como um método de tratamento para as pessoas com conflitos de imagem, com dificuldades de um funcionamento simbólico e refratárias à demanda de análise.

Como ressalta Fabiola, desde muito cedo começou a comer e vomitar, pois inconscientemente queria atrair a atenção de todos sobre ela. Criada em família abastada, aos três anos pulou do segundo andar de uma de suas casas. Testemunha a traição da mãe com um tio paterno, relata momentos de muita solidão e ausência dos pais. Dois fatos marcaram a vida da autora: primeiro, aos nove anos, a morte do pai em um acidente de carro. Ninguém a comunicou sobre isso. Era como se o pai jamais houvesse existido. O segundo episódio ocorreu quatro anos mais tarde, quando sofreu abuso sexual por parte de um amigo da família. De Clercq descreve tudo isso em forma de pequenas crônicas, aliando lembranças a interpretações psicanalíticas.

Após ser matriculada em um internato de freiras, aos treze anos começa a engordar, a fazer dietas rígidas, tomando extratos tireoidianos, anorexígenos e hormônios, no total de nove comprimidos ao dia. Fabiola conseguia a medicação com endocrinologistas em que a mãe a levava com o objetivo de emagrecer rapidamente. Inicia-se a bulimia. Comer e vomitar eram formas de revoltar-se. Relatos da tristeza, dos problemas afetivos com a mãe, da relação conturbada e ambivalente com a figura materna são pontos altos do livro. Há momentos cruéis na descrição de orgias alimentares e jejuns atrozes. A raiva contida, o sentimento de onipotência em relação ao controle do corpo e a negação dos sintomas dão o tom da dimensão do sofrimento humano.

Apenas aos vinte e três anos inicia uma terapia. Aliás, várias terapias até conseguir estabelecer um vínculo mais saudável com alguém. Muitos são os laços frágeis de amor, as dificuldades de construir relações adultas e a recusa em viver. A cada capítulo relata a doença ligada a uma descrição de alguma lembrança da infância. Na relação com a analista vive a esperança de ser a mais amada das pacientes. Palavras como depressão infinita, morta-viva, angústia, falta de desejo são recorrentes no texto de Fabiola.

A autora descreve com sinceridade a dificuldade em aceitar a análise. Porém, conclui que apenas após esse processo passou a entender que poderia existir outra possibilidade de viver, de liberar a angústia de outra maneira e de ser menos destrutiva. E conquistar o amor, de que sempre sentiu falta. As amarras soltam-se lentamente. Já não nega mais a própria feminilidade, embora se ache sempre frágil para viver.

“Todos nós temos uma versão pessoal da nossa história”. Essa é uma confissão surpreendente para cada leitor que conhece sua trajetória como paciente ou como analista. O interessante é a forma como a autora transmite ao leitor a sua visão dos problemas em textos curtos, expondo sua forma pessoal de compreender os acontecimentos da própria vida. Com sua paixão pela transmissão, Fabiola de Clercq deixou-nos a marca de sua presença. Nem todo o pão do mundo é capaz de saciar a fome de amor, a ausência de cuidados.

*Psicanalista pelo Instituto Sedes Sapientiae de São Paulo e Mestre em Psicologia Clínica pela UNESP Assis-SP.

Publicado em Resenhas