Emagrecer a qualquer preço

Cybelle  Weinberg*

Estou fazendo quimioterapia. Tenho 1,58m e antes do início do tratamento pesava 60kg. Não acho que estivesse gorda. No entanto, quando dividi a minha aflição frente aos efeitos do tratamento com uma pessoa conhecida – bióloga e professora -, ouvi o seguinte comentário: “pense no lado bom, você vai emagrecer…” .

Após duas sessões de quimioterapia, perdi 3 quilos. Durante um almoço em família, enquanto eu provava vários  alimentos diferentes tentando encontrar algum que não me provocasse náuseas e cujo sabor fosse minimamente suportável, ouço a seguinte frase: “aproveita para emagrecer…”.  Essa partiu de uma economista, também professora.

Como se não bastasse, depois de perder mais 1 quilo, encontro um colega – médico psiquiatra e psicanalista -, que num primeiro momento não me reconhece. Pede desculpas, diz que eu estou diferente e que ele não sabe o que é. Diz que eu estou muito mais bonita (sic) e pergunta se eu emagreci. Digo que sim, que há três meses descobri um câncer. Então escuto a seguinte pérola: “você está muito melhor, acho que eu também vou querer ter um câncer…”.

Quando trabalhei no Instituto de Psiquiatria do HC, ouvi de algumas pacientes internadas no ambulatório de transtornos alimentares (AMBULIM), diagnosticadas com bulimia nervosa, que comiam alimentos estragados e/ou bebiam água contaminada com o objetivo de adoecer e perder peso.

E em minha pesquisa de doutorado encontrei documentos descrevendo o hábito de algumas religiosas que viveram no século XVII, que beijavam as feridas de companheiras afligidas pelo câncer e esfregavam-se com os seus curativos, com o intuito de se contagiar. Isto porque as doenças particularmente dolorosas eram interpretadas como uma forma de martírio e as chagas abertas, uma participação na Paixão de Cristo.

Pois bem. A bióloga que eu cito, assim como a economista e o médico, vivem no século XXI, não comungam nenhuma crença religiosa e não estão internadas em nenhuma clínica psiquiátrica. Mas representam muito bem uma sociedade profundamente transtornada, doente, em que as pessoas perderam a capacidade de empatia com o sofrimento do outro.

Você perdeu o emprego? Se divorciou? Está de luto por um ente querido? Está com câncer?  Tudo bem, veja o lado bom: você vai emagrecer!

*Psicanalista. Mestre em Ciências pela Faculdade de Medicina da USP e Doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Coordenadora Geral da Clínica de Estudos e Pesquisas em Psicanálise da Anorexia e Bulimia (CEPPAN).

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