Entrevista Maria Helena Fernandes revista n. 10

“Anorexia – Bulimia: desejo de nada”

Jaqueline Pinto Cardoso*

Os psicanalistas lacanianos Marcelo Hekier e Celina Miller compartilham nesse livro suas experiências clínicas e produções teóricas a respeito dos transtornos alimentares, adquiridas através de um longo e consistente percurso: a prática clínica no Centro de Saúde Mental N.3 “Dr.Arturo Ameghino” e o Seminário “Anorexia-Bulimia: posição subjetiva” realizado anualmente desde 1991. Os escritos elaborados a partir dessas experiências foram expostos em diferentes âmbitos psicanalíticos e reunidos nesse livro.

A proposta analítica dos autores é sustentar um trabalho de escuta e possibilitar “a passagem de uma boca forçada a comer ou a restringir-se para uma boca que coloca em palavras o sofrimento do sujeito” (p. 13), fazendo uma articulação que permita a troca do gozo pelo significante.

Consideram essas patologias como adicções, na medida em que os sujeitos localizam-se fora da cadeia de significantes configurando-se uma relação de escravidão em relação ao seu não-dizer. Partindo do ensino de Lacan afirmam que “não se trata do objeto–comida, mas da crise em relação com o impossível de dizer, vinculada às patologias do ato”. (p.14) Se a dimensão discursiva é excluída dando lugar à passagem ao ato “o sujeito cai entre parêntesis”. (p. 25)

As crises na bulimia e na anorexia podem ser consideradas como “formações do objeto a”, na medida em que não é com significantes que o desejo busca sua satisfação, mas sim com objetos, ao contrário dos sintomas na neurose. E é nesse ponto que os autores se perguntam “como tratar esses pacientes que encontram uma saída na comida, não querendo saber nada de si?” Existe de início uma impossibilidade do trabalho analítico.

A aposta analítica sobre a direção do tratamento é que se opere “uma passagem da problemática exclusivamente referida ao corpo para a convicção da existência do inconsciente”, abrindo a dimensão do “amor ao saber”. (p. 15) Passagem de uma posição subjetiva marcada pelas dificuldades de acesso ao desejo, e até de um “desejo de nada” – única maneira de se fazer desejante – para a dimensão do enigma.

O trabalho transferencial proposto segue a direção de reinstalar o lugar de Sujeito Suposto Saber do qual o analista foi desalojado e “transformar o silêncio do objeto em um enigma e relançar o trabalho associativo”. (p. 31) Trata-se de uma clínica do fazer, já que esses pacientes ficam presos na ação, e o trabalho analítico deve permitir que o dizer se reinstale na dinâmica transferencial.

Impasses clínicos deram-lhes a ideia de incluir na sessão de determinados casos o uso de certos materiais como papel, lápis de cor e massa de modelar, além de pedir que pacientes escrevessem entre as sessões, estimulando que colocassem em palavras seu sofrimento psíquico. A inclusão da terapia familiar vinculada ao tratamento individual também é indicada pelos autores em função da trama discursiva da fantasmática familiar e do mal entendido em relação ao Outro.

Os autores fazem uma importante discussão sobre o discurso de alguns tratamentos médicos de pacientes com transtornos alimentares, cujo significante primordial é a proibição: proibido cozinhar, escolher o que se come, etc. Trata-se de um discurso que se localiza no “Discurso do Mestre”, conceitualizado por Lacan, que exclui a dimensão do desejo e que faz da patologia sua causa. “Não é o mesmo tentar dirigir uma cura do que dirigir a vida do outro”(p. 51), principalmente quando a problemática em questão encontra-se centrada na dificuldade de acesso ao desejo.

O trabalho analítico diferencia-se do Discurso do Mestre e localiza-se no “Discurso do Analista” (Lacan, El Reverso Del psicoanálisis, 1992), onde o analista ocupa o lugar de objeto enquanto o paciente fica no lugar de sujeito barrado, posição de quem trabalha fazendo deslizar os significantes nos quais encontra-se alienado. Segundo os autores esse modo de intervenção é o que possibilita que o sujeito advenha, que a condição de sujeito do inconsciente e desejante apareça na transferência.

O grande impasse nesses casos é justamente a exclusão da dimensão discursiva e o ato separado da cadeia de significantes, ato que revela a busca da satisfação da pulsão. Trata-se do sujeito da pulsão, um modo de subjetivação “acéfala”, segundo Lacan, que configura uma posição de objeto.

Na bulimia e na anorexia ocorre uma confusão entre a ordem da necessidade, da demanda e do desejo, justamente porque as necessidades não passam pelo aparato da linguagem, o que formaria as demandas. A demanda em relação ao Outro é sempre de outra coisa, que não a de um objeto específico. Demanda ao Outro castrado, de quem se espera que receba sua falta a ser, que é o dom do amor, e é aí que surge o desejo. A relação dessas pacientes com o Outro materno revela um curto-circuito entre necessidade, demanda e desejo, e quando a demanda se transforma em pura necessidade é que o sujeito ocupa a posição de objeto.

Esses casos revelam o que Lacan já havia mencionado no seminário 17, que a relação da mulher com sua mãe, na maioria das vezes,causa estragos, comparando a mãe com um crocodilo com a boca aberta, onde pode cair a presa, existindo uma função de complemento e de tentativa de anular a inconsistência do Outro. As presas se colocam “na carta do menu” de suas mães, que oferecendo tudo às suas filhas mantêm-se em um lugar de consistência. O jeito que encontram de criar uma falta na relação com esse Outro totalizante é dizendo não à comida, como na anorexia.

Diante do enigma do desejo do Outro o sujeito se faz desaparecer, o que é próprio da operação da separação, descrita por Lacan no seminário 11, responsável pela constituição do sujeito do inconsciente. É com a fantasia de sua própria morte que o sujeito na anorexia se coloca perante o Outro. A resposta que ele dá a esse Outro que se relaciona pela via da necessidade, e não do desejo é “ser no nada, ser na morte”. (p. 113)

Ser bulímica e ser anoréxica constituem uma forma de situar o ser e o gozo, do qual não se pode renunciar, aparecendo a dimensão da repetição. Busca-se incessantemente o objeto perdido não havendo interrogação alguma, pois a demanda é muda, assim como a pulsão. Se por um lado o desejo impulsiona perguntas, o gozo cala, caindo em uma pura contemplação autoerótica do corpo.

O desafio que se coloca para o analista é que o sujeito consiga interromper as crises através da interrogação, trazendo à cena analítica a dimensão do significante, sabendo, no entanto, que chegará ao ponto de que nem tudo pode ser dito – dimensão do real.

Hekier, M.; Miller, C. Anorexia – Bulimia: deseo de nada. Buenos Aires: Paidós, 1996.

*Psicóloga com especialização em Psicologia Hospitalar em Instituição Pediátrica – Instituto da Criança HCFMUSP (2004). Psicanalista com Formação em Psicanálise pelo Clin – a (Centro Lacaniano de Investigação da Ansiedade – Associado ao Instituto do Campo Freudiano de São Paulo).

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