Entrevista Marina Miranda revista n. 9

Conversando com Marina Ramalho Miranda*

Christiane Baldin Adami-Lauand e Talita Azambuja Nacif

Muitos são os estudos que tratam da problemática dos Transtornos Alimentares, mas sabemos, por nossa experiência clínica, que a questão mãe- filha é central para a compreensão da dinâmica psíquica dos pacientes que apresentam esses transtornos. Nessa relação dual e pré-edípica, a simbiose – “um corpo para dois” -, deve ser observada de forma atenta pelos profissionais que trabalham com essas manifestações patológicas.

Outro tema importante e necessário no entendimento dos Transtornos Alimentares é a questão transgeracional: os aspectos psicológicos herdados através das gerações, os segredos, os não ditos, os lutos e os tabus.

Marina Ramalho Miranda, dedicada colaboradora e psicanalista atenta e fiel ao seu ofício, nos fala sobre irmos em “busca das palavras perdidas”, presente nos silêncios, no difícil manejo, na resistência etc.. E foi a partir desse pensamento que formulamos algumas questões disparadoras para nortear a entrevista que vem a seguir.

Entrevista esta que se transformou em uma conversa calorosa e rica de saber, em seu consultório, em São Paulo. Com delicadeza, saciou nossa fome de conhecimento e nos apresentou um recorte do mundo mental desses pacientes, em que não há espaço para a simbolização. O inominável é representado no corpo como uma forma de existência possível de uma dupla que, por algum motivo, adoeceu.

Suas palavras nos oferecem um respaldo para suportar o vazio que estes atendimentos mobilizam e nos encorajam a enfrentar o desafio de trilhar junto com estes pacientes o caminho do inominável.

Questões disparadoras:

1- Tendo em vista a sua experiência em atendimento de pacientes com transtornos alimentares, como você compreende a relação mãe-filha na dinâmica psíquica desses pacientes?

2 – Como você compreende a construção da subjetividade nesses (as) pacientes, tendo em vista uma possível relação simbiótica entre mãe e filha?

3 – René Kaës, um psicanalista francês que desde a década de 60 trabalha com grupos, trouxe importantes contribuições para a psicanálise de grupo e para o trabalho com famílias. O autor, no capítulo “Introdução ao conceito de transmissão psíquica no pensamento de Freud”, do livro Transmissão da vida psíquica entre as gerações, de 2001, aponta para os fatores de transmissão intrapsíquica, intersubjetiva, transpsíquica e formação do ego como constituintes da vida psíquica. Para o autor, a transmissão intrapsíquica tem como objeto de estudo conhecer o material interno transmitido na realidade psíquica. Já a análise da transmissão intersubjetiva compreende a intersubjetividade do sujeito em suas relações imaginárias, simbólicas e reais originadas no grupo familiar. A definição que Kaës nos apresenta sobre a transmissão transgeracional aponta para a inexistência do limite e do espaço subjetivo, permanecendo apenas a exigência do narcisismo. Assim, os elementos que se transmitem através dos sujeitos perpetuam segredos e lutos que dificultam a transformação e a simbolização. Desta forma, você pode discorrer um pouco sobre esses fatores de acordo com a sua experiência em transtornos alimentares? Como você observa a relação do não dito, “das palavras perdidas” e a transmissão transgeracional? Na sua prática, como você compreende e trabalha esses aspectos?

Marina Miranda:

Em primeiro lugar, queria agradecer a vocês e à CEPPAN o convite para esta conversa que muito me honrou.

Em minha pesquisa sobre o tema das perturbações alimentares, concentrei meu foco na relação mãe-filha, pois a partir da observação clínica e dos achados teóricos fui ao longo do tempo percebendo cada vez com maior clareza a importância dessa relação, que se constitui como um dos aspectos nucleares dos distúrbios alimentares.

Sabemos como as meninas anoréxicas e bulímicas sofrem em seu universo tão particular e hermético e ficam fechadas num universo próprio, vítimas do seu silêncio e do seu não-saber, mas em meio a tantas sombras surge, destacada, a figura da mãe, sofrida e assustada, e com um mundo de dúvidas e perguntas que faz a si mesmo, percebendo que algo muito grave aconteceu, mas não faz ideia do que, de quando e do por quê.

A mãe, que junto com a filha, está rendida a essa força incontrolável da recusa ao alimento, do fechamento da boca e da mente às entradas e compartilha com a filha do sentimento claro de impotência e desamparo diante da magnitude dos sintomas alimentares, sofre o desespero de não poder alimentar a filha e viver a angústia de assisti-la perdendo peso e se aproximando de um estado de inanição que mesmo revertido irá deixar marcas malignas em seu corpo e em sua alma.

Mãe e filha, na dinâmica psíquica da anorexia e da bulimia, percebem-se enredadas na dependência que se criou entre ambas, num labirinto de emoções confusas, onde uma não pode parar de nutrir a outra, tendo como cenário o vínculo fusional simbiótico.

São constatações gerais, da clínica cotidiana dos transtornos alimentares, mas preciso destacar que não traçamos um perfil anoréxico típico, no qual vamos protocolar nossas pacientes. E será principalmente nessa dimensão, que a Psicanálise tal qual postulada por Freud, contribui de maneira preciosa na equipe interdisciplinar de atendimento aos transtornos alimentares.

Contribui ao mostrar à comunidade científica que o nosso objeto de estudo não é a Anorexia ou a Bulimia e sim cada paciente anoréxica ou bulímica que a nós se apresenta e que vai ser na singularidade e especificidade de cada uma delas que o projeto psicanalítico na sala de análise vai se edificar. Estamos interessadas no sujeito analítico, que ali está, demandando restauração dos buracos que ficaram em sua constituição psíquica, uma busca do fio perdido de significações que em algum lugar se rompeu. Aí, nesse momento, neste cenário cresce novamente a figura da mãe, que sofre a sensação de que algo seu está no meio dessa situação incompreensível, e nos perguntam, indignadas e culpadas: Mas, aonde foi que eu errei? Eu fiz tudo o que podia por ela, amei tanto minha filha, como pôde acontecer isto com nossas vidas?

Sentimos o quanto as mães precisam da nossa escuta, o quanto sofrem e o quanto se sentem confusas diante de tantas recusas da filha, impotentes e desamparadas. Não foi erro, não foi descaso, não foi descuido. Talvez excessos na forma de amar? Será que podemos pensar assim? Um amor que a arrasta para identificações com a bebê nascida, tão grande a ponto de ter vontade de devorá-la e devolvê-la ao útero? Melanie Klein nos conta muito bem essa história, ensinando que uma das primeiras fantasias inconscientes da jovem mãe é a de devorar o bebê, coincidente com uma das primeiras angústias que invade o bebê ao nascer que é a angústia de aniquilamento, ou seja, mãe e filha correm o grande risco de se engolfarem, desafiam a paixão, mergulham nela tanto que transbordam os limites e se unem. Dessa união fusional, nasce a sobreposição de corpos e a sensação de ter sido engolida pela mãe e a mãe, por sua vez, não consegue viver sua própria vida, tão atormentada pelos riscos que ameaçam as vidas e as relações afetivas.

“Parece que temos um só pulmão, um só coração, uma só cabeça!” desabafa uma jovem mãe em entrevista. As bordas dos dois mundos se borraram, um tsunami mental invade o self em formação e os afetos ocupam seu corpo, atingindo e obstruindo os caminhos da subjetivação . Lembremo-nos de que “o ego nos inícios da vida é corporal” (Freud, 1923). Tudo então acontece no corpo, até que a lenta dessomatização da psique (McDougall,) se processe a contento. Mas, no cenário dos transtornos alimentares, a dessomatização é extremamente lenta e mãe e filha permanecem juntas, não conseguem se separar, as equações simbólicas (Hanna Segal, 1981) passam a vigorar na vida mental e self e objeto se unem sem alternativas de proteger a singularidade, sem chances de diferenciação. Está instalada uma falha no processo de subjetivação, onde a intensidade do vínculo entre as duas mulheres, transformou-se em violência e provocou as angústias de invasão tão frequentemente a nós expostas na relação analítica.

O projeto identificatório fica desse modo interrompido e prejudicado pela força negativa das defesas que são criadas pelo ego, para proteger a mente de uma possível desorganização. E essas defesas são formadas pelos fenômenos anoréxicos e bulímicos que encontram no corpo e na comida os lugares perfeitos para sua fertilização, porquanto são tentativas precárias de representar simbolicamente a presença de um mundo interno onde nada mais cabe, a sensação de estar estufada após uma invasão de conteúdos estranhos, somada ao terror de conter em si corpos estranhos, que tem o poder de desencadear um veneno mortífero que atinge o self e desmorona a vida imaginativa, o sonho, a criatividade. A estereotipia de pensamento impera, só é permitido pensar no comer e no não comer, nas calorias geladas de afeto vivendo nas bordas das situações-limite.

Os segredos, o direito à privacidade, a intimidade, tudo fica alterado, pelas constantes ameaças, reais ou imaginárias, da intrusão materna. O filme Cisne Negro explora bem essa dinâmica e Nina, a personagem principal, sonha, delira, alucina a presença da mãe, em todos os momentos e tenta expurgá-la de si, vomitá-la e eliminá-la.

Ao emagrecer, a menina delira um desaparecimento do corpo materno em si, embora sinta a mãe como o ser que ela mais ama e do qual ela não pode se separar.

Estamos frente às patologias dos contrários e das incongruências e dos grandes enganos.

O amor apaixonado e tomado por excessos transborda e se transforma num ódio deslocado para o corpo, que sofre com os constantes ataques dos vômitos, da acidez da fome e do amargor dos jejuns, dos excessos nas academias, na punição e culpa constantes.

Os venenos da experiência afetiva inominável se espalham na história das mães e filhas que seguem a vida, aprisionadas pela fantasia da morte.

As heranças psíquicas transgeracionais acontecem numa transmissão de afetos familiares frutos de um material psíquico inconsciente, que atravessa várias gerações sem possibilidades de serem transformados ou simbolizados. No filme Como água para chocolate, que foi baseado no romance homônimo da autoria da Laura Esquivel, podemos viver junto com as filhas os efeitos dessas transmissões brutas, passadas de mães para filhas, tendo como pano de fundo a herança da força da culinária como meio de expressão emocional num trama familiar onde o despotismo da figura materna transmite predestinações absurdas que reprimem e obstruem o desenvolvimento familiar, os vínculos fraternos e as relações amorosas. Lutos não elaborados e elementos emocionais indiferenciados fazem parte de situações traumáticas antigas e constituem-e nos núcleos inconscientes dessas transmissões transgeracionais.

Entre nós, Maria Cecilia Pereira da Silva, citando Kaës e outros, elucida essa distinção que vocês aludem na terceira pergunta:

A transmissão intergeracional engloba tudo aquilo que é transmitido de uma geração para outra, acompanhado de algumas modificações ou transformações. Então, uma herança intergeracional é constituída de vivências psíquicas um pouco mais elaboradas: fantasias, imagos, identificações… que organizam uma história familiar, uma narração mítica da qual cada indivíduo pode extrair os elementos necessários à constituição de sua história familiar individual neurótica. O indivíduo sempre se ancora em uma história familiar que o precede, da qual vai extrair a substância de suas fundações narcísicas, e tomar um lugar de sujeito. A transmissão intergeracional refere-se aos fenômenos de transmissão entre pais e bebês, funcionando nos dois sentidos. Ou seja, trata-se também do que se transmite do filho aos pais, uma transmissão ascendente, que não passa somente pela linguagem, mas também por toda uma série de mecanismos comportamentais interativos (Eiguer 1991, 1997; Kaës, 1993; Correa, 2000; Golse, 2001a, 2001b)1.
1-SILVA, M. C. P. Identificação mórbida: comunicação transgeracional traumatizante. Revista de Psicanálise da Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre, V. XIV, nº. 1, pp.137-165, 2007.

Nesse sentido, cabe a nós analistas investigarmos essas questões junto à família de nossas pacientes portadoras de transtornos alimentares, recontando e reconstruindo a historicidade familiar, seus lutos, suas feridas narcísicas, suas vergonhas, seus segredos mais escondidos.

Os corpos e mentes aprisionados e congelados na oralidade têm assim uma chance de enfrentar sua mudez pulsional, de chegar mais perto daquilo que os escravizou, o interdito que ficou no estofo da mente produzindo sombras no conhecimento de si.

E quando surgimos, nós, psicanalistas, quem sabe, se estivermos equipados com a escuta interna e com a coragem de desbravar esse mundo subterrâneo dos transtornos alimentares, poderemos resgatá-las ambas, mãe e filha, da frieza desse clima gelado de afeto, porquanto o calor excessivo dos inícios não pôde aquecer a vida mental e preparar um caminho de representação simbólica rumo à genitalidade.

Para encerrar, vou parafrasear o Dr. John, personagem apaixonado de Esquivel no filme “Como água para chocolate”:

Quando estamos sob uma emoção excessivamente intensa, quando acendemos todos os nossos fósforos internos de uma só vez, iluminaremos nossa visão além do normal e nos depararemos com um túnel esplendoroso que esquecemos ao nascer e que agora nos chama para um caminho até nossas origens divinas.

Marina Ramalho Miranda – Psicanalista – Sociedade Brasileira de Psicanálise de SP. Mestre e Doutora pelo Núcleo de Psicanálise da PUCSP. Especialista e Supervisora Clínica pelo CRP-SP. Especialista em Saúde Mental pela Faculdade de Saúde Pública da USP.Coordenadora da Comissão Psicanálise e Universidade da Sociedade Brasileira de Psicanálise de SP.

Christiane Baldin Adami-Lauand – Psicóloga. Mestre em Ciências pela Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto – EERP/USP. Coordenadora do Grupo de Apoio psicológico aos Familiares do GRATA – HCFMRP (2008-2010). Membro efetivo da CEPPAN.

Talita Azambuja Nacif – psicóloga e Psicanalista. Membro efetivo do Departamento Formação em Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. Membro efetivo da CEPPAN.

* Entrevista publicada originalmente na Revista Cadernos da Ceppan, n.9, Outubro de 2011.

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