Transtornos Alimentares. Col. Clínica Psicanalítica. São Paulo: Casa do psicólogo, 2006.

As fronteiras do eu

*Ana Paula Gonzaga

Resenha de Transtornos Alimentares.  Maria Helena Fernandes, São Paulo, Col. Clínica Psicanalítica, Casa do psicólogo, 2006.

Mais do que uma obra de referência, imprescindível a quem se dedica ao trabalho com pacientes com Transtornos Alimentares, o livro de Maria Helena Fernandes promove um efeito curioso durante sua leitura: nos sentimos acompanhando a autora em seu percurso, compartilhando idéias, reconhecendo o cotidiano e a especificidade dessa clínica, sem perder a profundidade empreendida na discussão proposta.

Com refinamento, delicadeza e uma pesquisa meticulosa, Maria Helena nos leva a traçar um caminho na clínica psicanalítica dos Transtornos Alimentares, que a cada página revela seu trabalho consistente e seu pensamento agudo diante de uma clínica tão árida.

Tendo por referência suas experiências no atendimento psicanalítico de pacientes com anorexia e bulimia nervosas – em seu consultório e também institucionalmente – Maria Helena conta e discute a subjetividade própria a essas patologias. Sem a pretensão de estipular novas categorias nosológicas, a autora, sustentada por uma pesquisa rigorosa, nos oferece subsídios teórico-clínicos para apreender e refinar a escuta dessas organizações psicopatológicas, tendo por pano de fundo o corpo, a feminilidade e as relações objetais.

A primeira parte do livro é dedicada ao levantamento criterioso das contribuições psiquiátricas, nutricionais, culturais e históricas que ampliam o campo da compreensão dos Transtornos Alimentares através do tempo e das ciências afins. Apresenta e discute o quadro clínico da anorexia e bulimia nervosas e os recursos terapêuticos disponíveis. E ainda, tomando a obra freudiana como ponto de partida, faz uma importante revisão na literatura psicanalítica que versa sobre os Transtornos Alimentares.

A segunda parte nos contempla com as idéias de Maria Helena, produzidas pela inquietação diante da clínica, contadas com generosidade e preciso rigor. Dedica-se a refletir sobre uma das mais expressivas problemáticas vividas especialmente pelas anoréxicas – a distorção da imagem corporal -, trabalhando com conceitos psicanalíticos que vão desfiando toda uma subjetividade própria a essas pacientes: as dificuldades na percepção das sensações corporais, a indiscriminação dentro e fora – mundo interno, mundo externo; o eu e o outro -, onde o corpo não exerce função de contorno ou fronteira. Trabalhando com o conceito freudiano de pára-excitação, propõe uma riquíssima compreensão para essa precariedade nos sistemas de fronteira e sua derivação para a sintomatologia da imagem corporal e a “ausência de autonomia e dificuldade de diferenciação da figura materna”.  Ainda nesse espectro, o da imagem corporal, discute a função da dor na formação do ego corporal, dos processos de identificação e narcisismo, e dos investimentos maternos que resultarão no entramado das relações objetais regidas pela necessidade e pelo prazer.

Maria Helena conclui o livro abrindo um campo de pensamento, com a clínica referenciando as possibilidades de compreensão e manejo dessas patologias, que têm o corpo por estandarte. Explora com precisão o conceito de fronteira, que já havia anunciado, e nos ajuda a realmente entender a dificuldade que essas jovens anoréxicas e bulímicas têm na percepção de suas sensações corporais que evidenciam tão pontualmente suas dificuldades na percepção de seu mundo interno, sua subjetividade e no reconhecimento de suas necessidades afetivas.

Por fim, legitima e enfatiza o trabalho analítico com essas pacientes, reconhecendo a singularidade de seu sofrimento e convocando a “criatividade dos analistas para abrir possibilidades de construção e reconstrução de sentidos na experiência subjetiva dessas jovens”.

 

Por Ana Paula Gonzaga

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