Kafka e o “artista da fome”: um jeito anoréxico de ser.

Cybelle Weinberg*

A anorexia foi a melhor coisa que podia ter acontecido na minha vida. Antes dela eu não era nada…
I., 19 anos

Segundo Magtaz e Berlinck (2012), para que um caso clínico seja tomado como objeto de estudo e motivo de pesquisa, deve suscitar algo no clínico que o inquiete e que o chame a compreendê-lo. A clínica, portanto, seria o espaço privilegiado para tal acontecimento, quando o clínico, na sua atenção flutuante, é convocado pela associação livre do paciente a decifrar um enigma, que, tal qual uma esfinge, exige decifração.

No entanto, pensamos que uma obra de ficção também pode ser tomada como um caso clínico. Se aquilo que o escritor produz brota de sua memória e de suas associações, porque um personagem ou uma situação não poderiam provocar no leitor algo impactante a ponto de mobilizá-lo a escrever sobre o que foi escrito?

Um artista da fome, por exemplo, espelha de tal modo a vida de alguns pacientes – com ou sem sintomas de anorexia -, que é quase impossível ao clínico ler o conto sem associá-lo à clínica. Além disso, leva a pensar que talvez só alguém que tenha vivido tal situação poderia descrever tão bem a vida desse personagem que, por sinal, nem nome tem: é apenas “o artista da fome”.

Ainda que não seja nosso propósito fazer uma análise da vida de Franz Kafka (1883 – 1924), achamos interessante citar o que alguns estudiosos da sua biografia escreveram sobre ele. Vandereycken e Van Deth (1994), por exemplo, afirmam:

“Aparentemente Kafka estava, ele mesmo, familiarizado com a arte de jejuar. Seu modo de vida pode certamente ser caracterizado como ascético: a sexualidade lhe era assustadora e ele não tocava em álcool ou carne a fim de reter a sensação de pureza física e compromisso com a natureza.” (p. 236)

E ainda:
“A caracterização íntima, profunda, da vida do artista da fome atesta um insight psicológico, e não poderia derivar unicamente de publicações sobre o fenômeno” (idem).

Ou Fichter (1987), que estudando sua vida e obra reconhece em Kafka características próprias de quem sofre de anorexia, como “perfeccionismo, preocupações constantes com a comida, a luta insatisfatória pelo reconhecimento dos outros, sua solidão”. E comenta:

“No seu diário, Kafka descrevia suas fantasias de devoração masoquista e a ingestão bulímica, pensamentos centrados em comida e um desejo que ele satisfazia na observação da carne que ele negava a si mesmo, exibida em um açougue. “Quando eu vejo uma salsicha, na minha imaginação eu a mordo com todos os meus dentes, engulo-a rapidamente e repetidamente como uma máquina. O desespero que este comportamento imaginário me causa aumenta a minha pressa. Sem morder, eu empurro uma longa peça de costelas na minha boca e a tiro através do estômago e dos intestinos. Eu como toda a comida de um armazém até deixá-lo completamente vazio. Eu me entupo com arenques, pepinos e todas aquelas terríveis comidas condimentadas. Doces que saem de caixas de metal são bombardeados em mim como uma chuva de pedras” (Kafka, 1983, p. 95, citado por Fichter, p. 371)

Profissionais que acompanham pacientes com distúrbios alimentares costumam dizer, metafóricamente, que o sonho de quem tem bulimia é ter anorexia e que o pesadelo de quem tem anorexia é ser bulímico. Seguindo essa linha de pensamento, Kafka teria resolvido esse conflito pela via da literatura: seu artista da fome jamais sucumbiria frente ao monte de salsichas, pepinos, arenques e doces do Diário, uma verdadeira descrição de um episódio de binge eating.

Em Um artista da fome, ao contrário do que se lê em seu diário, Kafka conta a história de um jejuador profissional que, dentro de uma jaula, exibia sua capacidade de ficar sem comer durante 40 dias. Seguindo a determinação de seu empresário, o jejum não deveria exceder esse período, porque depois desse tempo a plateia perderia o interesse pelo espetáculo. Fato este ofensivo e humilhante para o artista, que afirmava poder jejuar por muito mais tempo. O que pode ser comprovado no final de sua vida, quando, empregado em um circo porque ninguém mais se interessava pelo seu espetáculo e sem saber fazer outra coisa, obteve permissão para jejuar pelo tempo que quisesse. Esquecido em uma jaula, permaneceu ali até ser descoberto pelo inspetor do circo e já à beira da morte. Segue-e, então, esse diálogo perturbador, em que o artista diz ao inspetor que, apesar de sempre ter querido que admirassem seu jejum, ele não deveria ser admirado. Perguntado por que, responde: “Porque eu preciso jejuar, não posso evitá-lo. […] Porque eu não pude encontrar o alimento que me agrada. Se eu o tivesse encontrado, pode acreditar, não teria feito nenhum alarde e me empanturrado como você e todo mundo.” (1998, p.35)

Trata-se, aqui, daquilo que é próprio do humano, o desejo: “Eu não pude encontrar o alimento que me agrada…”. E da eterna insatisfação e eterna impossibilidade de escolha próprias da melancolia, pois escolher é abandonar um objeto em detrimento de outro; e como poderia fazer isso quem não tem a possibilidade de abandonar algo porque não suporta a perda? Nenhum alimento agrada, nada satisfaz. Só o lamento preenche a vida do melancólico, preso na busca do Ideal de ser o melhor de todos – “o maior jejuador de todos os tempos” -, cujo preço é a morte.

Como o artista da fome que não sabia fazer outra coisa senão jejuar, o dom de escrever era, para Kafka, “a própria salvação” (Heller, 1976, p.62). E, da mesma forma como o artista passou a vida isolado dentro de uma jaula, Kafka aspirava, como escreveu em suas Cartas a Felice, citadas por Heller, “à solidão ascética do ermitão em sua gruta”. Escrevia, também ele, porque não podia evitar de o fazer.

Referências bibliográficas

FICHTER, Manfred M. The Anorexia Nervosa of Franz Kafka. International Journal of Eating Disorders, Vol. 6, No. 3, 367-377 (1987).

HELLER, E. Kafka. São Paulo: Cultrix, 1976.

KAFKA, F. Um artista da fome e A construção. Trad. de Modesto Carone. São Paulo: Companhia das letras, 1988.

__________ Parábolas e Fragmentos e Cartas a Milena. Rio de Janeiro: Ediouro, 1987.

MAGTAZ, A C.; BERLINCK, M T. O caso clínico como fundamento da pesquisa em Psicopatologia Fundamental. Rev. Latinoam. Psicopat. Fund., São Paulo, v. 15, n. 1, p. 71-81, marco 2012.

VANDEREYCKEN, W.; VAN DETH, R. From fasting saints to anorexic girls: the history of self-starvation. New York: University Press; 1994.

*Psicanalista. Mestre em Ciências pela FMUSP e doutoranda em Psicologia Clínica pela PUCSP. Coordenadora da CEPPAN e da CASA VIVA Clínica de Tratamento de Transtornos Alimentares.

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