Notas sobre o brincar e o sonhar na psicanálise

Camila Perez*

Melanie Klein, uma das pioneiras no campo da psicanálise com crianças, propõe ser possível manter os mesmos princípios da psicanálise para tratar os sofrimentos na infância. Para tanto, altera apenas a técnica, equivalendo o brincar das crianças à associação livre de adultos. Nesse sentido, Souza (2013) aproxima a função que teve o brincar para Klein com o sonhar para Freud:

“Se trabalhar com os sonhos abriu caminho para que Freud conhecesse os conteúdos que habitam o inconsciente e formulasse o que seria sua primeira teorização (…) podemos dizer que, para Klein, o brincar constituiu-se em via régia para o inconsciente da criança” (p.127).

Mais adiante, a autora compara crianças que não brincam com adultos que dizem não sonhar ou não se lembrar de seus sonhos. Mas, afinal, o que há de tão íntimo entre o sonhar e o brincar?

É comum que o relato dos sonhos carregue certa confusão de quem narra devido ao caráter frequentemente absurdo do enredo sonhado. Ouvimos comentários do tipo: “parecia minha casa, mas não era”, “era minha mulher, mas tinha o rosto da minha tia”, “não sei por que sonhei com isso, não faz o menor sentido”. Para driblar a censura, os sonhos brincam com nossas fantasias, nossos pensamentos e nossos desejos, deixando-os vir à consciência de modo disfarçado e confuso.

Voltando às brincadeiras infantis, estas também trazem certa insensatez: são pessoas que voam, animais que viram humanos, objetos que falam… Bem como os sonhos, as brincadeiras são, por diversas vezes, desqualificadas por serem desprovidas de lógica e racionalidade – “são apenas brincadeiras de crianças…”. E por que são sonhos e brincadeiras tão estudados por psicanalistas de diferentes escolas?

Podemos começar dizendo que o próprio inconsciente não é lógico, ou melhor, tem uma lógica outra, que não exclui contradições, conflitos e proibições morais. Como diz Freud (1996, p.307), um processo inconsciente de pensamento “pode diferir com facilidade do que percebemos durante a reflexão intencional acompanhada pela consciência”.

Para o pediatra e psicanalista Donald Winnicott, desde antes do nascimento a brincadeira está presente como forma de relação com o próprio corpo, com o outro e com o mundo. Além disso, o brincar concerne ao sujeito noções de tempo e espaço, que permitem a experiência de ser no mundo e de continuidade no tempo, de permanência, “de ser alguém singular que tem uma contribuição própria para dar à realidade externa” (CALLIA, 2013, p.145).

Outra questão importantíssima é a dimensão simbólica presente no brincar, ou seja, a possibilidade de colocar metaforicamente uma coisa no lugar de outra. Freud (1996) já havia se referido a esse mecanismo psíquico quando estudou e teorizou sobre os sonhos. Foi percebendo que, ao sonhar, os elementos se sobrepõem e representam outras coisas além de si mesmas. Há, assim, uma fusão entre mais de um elemento e, consequentemente, muitos significados possíveis a um mesmo item, tanto nos sonhos, quanto nas brincadeiras.

Brincar e sonhar são, portanto, trabalhos psíquicos e, como sintomas e atos falhos, transportam enigmas. Enquanto vias de acesso a conteúdos inconscientes, falamos de algo sempre singular e que só pode ser compreendido caso a caso. Quer dizer, não podemos interpretar o que vemos ou ouvimos sobre essas produções enquanto símbolo que diz algo por si só, mas tentar entender o que aquilo significa naquele momento para, e com, aquela pessoa (GUELLER, 2013). No caso de crianças, cabe questionar “em que momento da estruturação psíquica se encontra a criança e o que ela está tentando simbolizar” (p.160).

Em um processo de análise, esses aspectos inconscientes que influenciam diretamente nossos pensamentos, sentimentos e decisões – e geralmente são considerados disparatados fora de um setting analítico – são convidados a comparecer mediante a brincante proposta de um sonhar, acompanhado, e em sessão.

 

REFERÊNCIAS

CALLIA, M.M.M. No caminho da transicionalidade: brincando criamos o mundo. In: GUELLER, A.S.; SOUZA, A.S.L de. (Orgs.). Psicanálise com crianças. Perspectivas teórico-clínicas. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2013.

FREUD, S. A Interpretação dos Sonhos (1900). In: FREUD, S. Obras psicológicas completas, volume IV. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

GUELLER, A.S. O jogo do jogo. In: In: GUELLER, A.S.; SOUZA, A.S.L de. (Orgs.). Psicanálise com crianças. Perspectivas teórico-clínicas. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2013.

SOUZA, A.S.L. Melanie Klein e o brincar levado a sério: rumo à possibilidade de análise com crianças. In: GUELLER, A.S.; SOUZA, A.S.L de. (Orgs.). Psicanálise com crianças. Perspectivas teórico-clínicas. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2013.

 

*Psicóloga e Psicanalista. Membro efetivo da CEPPAN. Mestre em Psicologia Social pela PUC-SP. Aprimoramento Multiprofissional em Saúde Mental.

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