O relato de uma jornada: a dor do ser humano com transtorno alimentar

Francy Ribeiro Moreira*

Resenha de Fazendo as pazes com o corpo, de Daiana Garbin. São Paulo, Sextante, 2017, 160p.

Trata-se de um depoimento tocante. Uma mulher jovem, jornalista bem sucedida que descreve sua guerra interna até o difícil reconhecimento da doença. Daiana Garbin foi diagnosticada com o quadro de transtorno alimentar não especificado, que é uma das inúmeras manifestações do Transtorno Alimentar. Nesse quadro, a pessoa apresenta um comportamento desiquilibrado em relação à comida, o que gera prejuízos para a saúde e causa profundo sofrimento.

Foram anos de dor psíquica até o início de um tratamento adequado, de uma decisão de mudar sua vida. Apesar do árduo percurso trilhado, a jornalista escreve este livro para dividir com todas as pessoas o trajeto que culmina em descobrir que é possível ser feliz exatamente como se é. A mensagem principal é: “tem saída, acredite”.

O livro apresenta-se dividido em duas partes. Na primeira, Daiana descreve sua história pessoal com delicada sensibilidade. Na segunda, numa fase de pós-tratamento há uma compreensão mais teórica sobre a doença, relatos de pesquisas e entrevistas com profissionais especialistas em transtornos alimentares, que de uma forma generosa a autora compartilha com todos.

Em suas indagações, Garbin descreve sua relação doentia com a comida. Pela primeira vez coloca o seu sofrimento em palavras durante a semana do Ano Novo de 2014-2015. Retrata também pequenos fatos da infância e da adolescência que contribuíram para uma construção distorcida da imagem de si mesma. U m ponto muito interessante neste livro é que ao final de todos os capítulos a autora publica relatos de jovens que sofrem com os diversos tipos de transtorno alimentar.

Como ressalta Daiana, desde muito cedo escolheu os caminhos mais radicais para conseguir ser magra. Aos 14 anos já tomava remédios tarja preta para emagrecer. Apesar de ter sido a rainha de vários eventos em sua cidade no interior do Rio Grande do Sul, de ter facilidades ao se comunicar em público, de não ser tímida, nada a deixava feliz com seu corpo. Fez faculdade, namorou. Assim que começou a trabalhar vieram as cirurgias plásticas e as dívidas. Nada a alegrava. Até que um psiquiatra a diagnosticou com o quadro de depressão por excesso de medicação. Foi proibida de tomar moderadores de apetite.

Dos 23 aos 26 anos, Daiana relata seu sucesso profissional. Trabalhou numa rádio de Farroupilha, depois de formada em Jornalismo foi contratada por uma TV afiliada da Rede Globo e depois de um ano o sonho se realiza: um convite para trabalhar na Rede Globo de SP. Com tanta emoção em jogo, ela só comia. A comida amenizava a ansiedade, o medo. Ela volta a engordar, a emissora cobra de Daiana o padrão de beleza – ser magra. Então, volta a tomar remédios, a fazer tratamentos estéticos caros e ineficazes. Foram três anos castigando o corpo.

Em seguida, ela consegue comentar de forma muito honesta sobre suas experiências amorosas frustradas, suas experiências sexuais traumáticas. Apesar de muitas decepções, entre 2009 e 2010 Daiana conhece o amor da sua vida. Mesmo assim o pesadelo continuou. Ela chegou a injetar insulina intravenosa como forma de emagrecer. Com o apoio do marido conseguiu largar os remédios e aproveitar o dia mais feliz de sua vida – o casamento.

Nada foi fácil. Novas dietas, nova cirurgia plástica até tomar consciência sobre a doença. Fez terapia durante o ano de 2015, procurou um psiquiatra que a diagnosticou com um tipo de transtorno alimentar. Finalmente, conseguiu se engajar nos tratamentos. Largou o emprego na TV, criou o seu canal no YouTube – EuVejo, em abril de 2016. Surpresa com milhares de visualizações, Daiana enfrentou também o preconceito das pessoas em relação ao tema dos transtornos alimentares. Com muita coragem seguiu em frente com os passos para recuperar o controle da vida, do corpo, das emoções. E mais, passa a compartilhar sua história pessoal e seu conhecimento sobre a doença com as pessoas em geral.

Dando início à segunda parte do livro, Garbin segue construindo um conhecimento mais teórico sobre os transtornos alimentares. No capítulo “As doenças da comida e da beleza”, Daiana descreve diversos tipos de transtornos alimentares conforme o DSM-5. São quadros psiquiátricos de profundas alterações no comportamento alimentar e psíquico.

Em “As causas dessas doenças” o foco da autora são os diversos fatores causadores dos transtornos alimentares, como os fatores biológicos, genéticos, socioculturais, familiares e psicológicos. Conforme pesquisas citadas, os transtornos alimentares são uma resposta física a padrões de pensamento como o da busca de um tipo inatingível de beleza, ou seja, a crença de que ser  magra e bonita seja o caminho para a felicidade. Segundo o psiquiatra da USP, Dr. Táki Cordás a sociedade vive em épocas de pressão total pelo corpo ideal. A psicanalista e coordenadora do CEPPAN, Cybelle Weinberg relata que a maioria das mulheres está insatisfeita com o peso, porém o elevado grau de sofrimento dessas mulheres na atualidade lhe parece inédito.

Outro fator a ser observado é o sentir-se obrigado a ser perfeito. A perfeição não é possível. Acreditar nisso destrói qualquer autoestima.  Daiana também enfatiza o poder da mídia tanto em relação às redes sociais como em relação aos lucros da indústria da beleza. Segundo pesquisa realizada no Reino Unido em 2017 o Instagram foi considerado a rede social com mais impacto negativo sobre a saúde mental dos jovens. Ou seja: avalie bem o que seguir nas redes sociais e observe o que consome para ficar magra e linda.

No próximo capítulo, “Comendo as emoções”, o ponto abordado é sobre o efeito negativo das dietas restritivas. Muitos estudos comprovam que a regulação externa da fome e da saciedade é uma das explicações para compulsões, obesidade e alguns tipos de transtorno alimentar. A autora aprendeu que a comida não preenche os vazios psíquicos. A questão está na mente e não no corpo. Com a terapia Garbin descobriu o porquê de comer tanto em determinadas situações. É possível sim fazer as pazes com os alimentos e com os sentimentos.

Daiana Garbin nos capítulos finais “Permita-se ser você” e “Para amar e respeitar seu corpo” descreve o quanto foi difícil e lento o processo entre aceitar o problema com a comida, pedir ajuda aos profissionais, permitir-se cuidar da saúde com equilíbrio, gostar de si mesma. Nada aconteceu num passe de mágica.  Ao citar Dalai Lama, Brené Brown, entre outros, a autora conclui que o amor-próprio foi o remédio mais poderoso para tantas mudanças difíceis em sua vida. Conclui que cada pessoa que sofre com questões semelhantes poderá fazer uma revolução pessoal, iniciar uma jornada de mudanças no seu tempo próprio.

Ao final do último capítulo está um depoimento da própria autora que de forma sincera identifica-se com suas seguidoras no canal do You Tube – “EuVejo”. Cara Daiana, a verdade jamais sairá de moda. Todas as pessoas que vivem em guerra com o corpo e a comida agradecem o seu engajamento na luta contra o sofrimento causado pelos transtornos alimentares.

Por fim, outro mérito do livro é a ampla referência bibliográfica, a citação de artigos, sites e palestras on-line, além de uma relação dos profissionais entrevistados, todos especialistas em transtornos alimentares.

 

* Psicanalista pelo Instituto Sedes Sapientiae de São Paulo e Mestre em Psicologia Clínica pela UNESP Assis-SP.

Publicado em Resenhas