Os 15 anos da CEPPAN

Francy Ribeiro Moreira*

Resenha do livro “Psicanálise de Transtornos Alimentares II”, 2016.

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O segundo volume de “Psicanálise de Transtornos Alimentares” vem para comemorar os 15 anos de sucesso do projeto CEPPAN. Uma clínica de atendimento social, uma instituição de qualidade de pesquisa com artigos e teses acadêmicas que teve como objetivo inicial divulgar conhecimento sobre os transtornos alimentares. Cybelle Weinberg, pesquisadora de uma vitalidade ímpar, nos convida a trocar ideias sobre a complexidade do tema.

O texto de abertura de autoria de Aline Eugênia Camargo descreve um caso clínico com sintomas de bulimia na adolescência ligado à adição e comportamentos de risco. Durante o processo analítico acompanhou-se o deslocamento de sintomas como expressões simbólicas de conflitos psíquicos que remetem a dimensão do arcaico, do aquém da representação, do difícil contato com o desamparo. Para compreender os comportamentos de risco da paciente, Aline recorre ao conceito de “procedimentos autocalmantes” descritos por autores da Escola de Psicossomática de Paris, no qual as atividades motoras de risco funcionariam como uma descarga pulsional com efeito calmante.

Os casos clínicos são um desafio para a Psicanálise que se coloca como uma possibilidade de escuta do sujeito. Caminho semelhante é seguido por Ana Paula Gonzaga que discute, a partir do texto freudiano, o movimento regressivo que se instala em pacientes com anorexia nervosa, o que permite propor a discussão de um funcionamento psíquico aquém da melancolia. Ana aprimora a questão da técnica psicanalítica e propõe que o analista tenha a delicadeza de reconhecer que o corpo é o depositário do que não foi metabolizado e que possa oferecer recursos para algum tipo de elaboração. Difícil trabalho de “construir pontes” para que as palavras possam de fato dar uma representação ao corpo.

Outros autores também enfatizam a questão do manejo clínico nos casos de transtornos alimentares. É o que se descobre no texto de Ana Tereza Arantes de Almeida Alonso que ressalta a importância de uma intervenção multidisciplinar para o tratamento de patologias complexas como é o caso dos transtornos alimentares. Aborda, também, a riqueza simbólica a ser trabalhada na terapia durante um processo integrado a uma equipe multidisciplinar atuante.

Um tópico de alerta ligado ao tema – o ciberespaço. De acordo com Camila Perez e Patricia Jacobsohn há um entrecruzamento da anorexia e da bulimia com o campo virtual. É intensa a proliferação de blogs e páginas de internet pró-anorexia e pró-bulimia com siglas específicas, estilo ilusório de vida onde angústia, mal-estar, não existem. As autoras defendem que o ciberespaço seja usado como meio de prevenção, de apoio e que cabe aos profissionais a criação de blogs que exponham a questão de forma adequada.

Em relação à bulimia o próximo texto das autoras Camila Peixoto Farias e Marta Rezende Cardoso tem como objetivo investigar a organização pulsional subjacente à bulimia. Os conceitos formulados por André Green foram escolhidos como referência teórica. Na bulimia, o ego do sujeito permaneceria atrelado a um objeto interno que se desloca, na realidade à dependência radical de um objeto externo – objeto comida. A teoria de Green fornece elementos valiosos para analisar essa relação entre o ego e o objeto na bulimia.

Flávia Machado Seidinger-Leibovitz, Carla Maria Vieira e Larissa Rodrigues, apresentam uma valiosa revisão da literatura científica no campo do que é agrupado pela psiquiatria como Transtornos Alimentares. A partir dessas pesquisas é possível estabelecer estratégias clínicas para a redução do abandono do tratamento de pacientes com bulimia e anorexia. Faz-se necessário que a equipe promova o holding, ou seja, um acolhimento que não julga, mas ampara. Que se invista na aliança terapêutica e seu manejo clínico. Trabalhar a autoestima, os vínculos afetivos, o desamparo e não apenas o controle do peso.

Sobre o vínculo mãe-filha as autoras Christiane Baldin Adami-Lauand, Fabiana Elias Goulart de Andrade Moura e Rosane Pilo Pessa, relatam o acompanhamento de um caso clínico onde a paciente é a mãe de uma filha com anorexia. Aparecem questões sobre a dificuldade de desmame dessa mãe, os momentos de ambivalência afetiva com a filha, a relação simbiótica e conflituosa que contribuiu para o difícil processo de individuação de cada uma. Tudo isso analisado do ponto de vista da transgeracionalidade, onde conflitos se repetem a cada geração.

A psicanalista Cybelle Weinberg analisa as automutilações nos casos de jovens adolescentes com transtornos alimentares. Esse grave sintoma denuncia a incapacidade de lidar com a sexualidade, com um corpo que dá prazer, com a impossibilidade de se desligar da mãe opressora. A autora recorre aos relatos de Santa Veronica Giuliani, santa jejuadora do século XVII, à teoria de Bidaud – que considera a síndrome de Lasthénie de Ferjol como paradigma dos sangramentos provocados – para pensar sobre o significado dessas soluções masoquistas que se impõem ao Ego.

Em outro capítulo as autoras Fabiana Maria Gama Pereira e Elisa Gan se dedicam a analisar um caso clínico de anorexia sob o ponto de vista tanto da antropologia quanto da psicanálise. Elas ressaltam que os rígidos padrões da nossa cultura influenciam o adoecer dessas jovens. O culto por um ideal estético seria uma forma de violência na contemporaneidade.

Sobre a compulsão alimentar a psicanalista Fernanda Kalil considera as compulsões como um sintoma que denuncia um quadro psicopatológico. Sintoma este que tem lugar privilegiado num mundo de rapidez, consumo e excessos. Segundo a autora é importante escutar o sujeito, compreender o significado da compulsão que pode se manifestar em diferentes quadros psicopatológicos. O analista tem uma função especial de recriar, de transformar angústias atuadas em uma vida com mais simbolizações.

Ao repensar a técnica usada com os pacientes que apresentam transtornos alimentares, Gabriela Malzyner considera a psicanálise eficaz e importante no tratamento desses pacientes. A técnica psicanalítica é fundamental, porém a rigidez do setting não deve acontecer. Não há necessidade de se oferecer um excesso de sessões. O analista também deve dialogar com a equipe multidisciplinar e tentar ajudar a construir um novo psiquismo, por isso as interpretações clássicas nem sempre encontram espaço. Difícil trabalho de construir bordas para o eu.

A partir de um recorte sobre o filme Cisne Negro (2011) e um caso clínico, Jaqueline Pinto Cardoso ilustra a temática do banquete totêmico na anorexia. O que está em jogo nessa patologia é uma alteração na lei simbólica da comensalidade, do comer junto. A lei da comensalidade pode ser lida como uma lei da castração simbólica. Como referência teórica são citados Freud, Lacan, Fédida, Bidaud, entre outros. O jejum é considerado como uma forma de relação exclusiva mãe-filha, impedindo o crescimento enquanto mulher.

No próximo texto, Marina Fibe De Cicco aponta para a necessidade de a escuta analítica ser estendida para modos de expressão diferentes da linguagem verbal. Utiliza as ideias do psicanalista francês Roussilon, para explorar alternativas a técnica de trabalho com pacientes com transtornos alimentares. Para Roussillon, nesses casos é preciso construir uma pele psíquica e para isso o setting deve ser possível no face a face com o corpo do analista também interpretante. Um novo campo analítico poderá contribuir para o processo de simbolização de pacientes.

Em “A anorexia e bulimia em Freud” Maria Helena Fernandes tem como objetivo evidenciar os modelos teóricos que inspiraram mais tarde as diversas contribuições pós-freudianas sobre essas patologias. Texto que mostra a anorexia, descrita por Freud em 1893, ligada `a histeria, `a melancolia, `as questões da oralidade, da sexualidade e da difícil relação pré-edípica da menina com sua mãe. Quanto `a bulimia, a primeira referência de Freud está ligada `a neurose de angústia, `a adição, `a compulsão, ou seja, formas de evitar o sofrimento. Tudo isso para nos informar que a psicanálise é um recurso entre outros para tratar desses casos clínicos, considerando evidentemente o avanço das pesquisas psicanalíticas.

Marina Ramalho Miranda irá ampliar a leitura sobre os transtornos alimentares nos apresentando um caso clínico sobre o Transtorno Dismórfico Corporal ou Dismorfofobia. Este tipo de transtorno se inicia durante a adolescência, sendo uma nova denominação psiquiátrica para o sentimento de feiura. A dismorfofobia é considerada uma patologia narcísica que se agrava na contemporaneidade, pois na sociedade atual a afirmação social passa pela simples aparência. Com isso muitos adoecem de forma cruel, com alto nível de sofrimento emocional. A autora destaca a impotência do atendimento isolado nesses casos. Importante valorizar a equipe multidisciplinar.

Em “Entrelaces psíquicos entre mães e filhas”, Marina F. R. Ribeiro aborda a complexidade da relação entre mães e filhas ao analisar com maestria o filme “Sonata de Outono” (1988) de Bergman. Para a autora a identificação feminina encontra-se perturbada nos transtornos alimentares. No filme citado podemos compreender as questões não explicitadas na relação mãe e filha. O duplo sentido nas relações, o ódio, os reais limites de uma mãe, o perdão da filha, o olhar masculino capaz de revelar um universo próprio ao feminino. Vale conferir essa análise em busca de uma verdade emocional.

Patricia Gipsztejn Jacobsohn nos apresenta as dificuldades e desafios dos analistas ao exercerem a clínica dos transtornos alimentares. Trata-se de uma transferência difícil, uma clínica árida, seres humanos empobrecidos de significações e afeto que exige do analista muita disponibilidade interna e tolerância, principalmente em relação às identificações projetivas do analisando.

Para finalizar, as autoras Talita Azambuja Nacif e Thais Fonseca de Andrade têm como objetivo pensar o setting analítico como um espaço onde historias são construídas, vividas e contadas. O referencial teórico utilizado é o de Winnicott, sendo que o setting analítico é visto como um espaço transicional fundamental para a construção simbólica de pacientes com transtornos alimentares, que estão famintos de estórias.

Enfim, agradecemos a todos os profissionais da CEPPAN, especialmente `a coordenadora Cybelle Weinberg por compartilhar conosco suas pesquisas, suas experiências clínicas e confirmar a vitalidade da teoria psicanalítica.

 

* Psicanalista pelo Instituto Sedes Sapientiae de São Paulo e Mestre em Psicologia Clínica pela UNESP Assis-SP.

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