Os transtornos alimentares – definição, etiologia e tratamento.

Christiane Baldin Adami-Lauand*

Os transtornos alimentares são considerados doenças psiquiátricas caracterizados por graves alterações do comportamento alimentar, podendo levar a grandes prejuízos orgânicos, sociais e psicológicos, além do aumento de morbidade e mortalidade (BORGES et al., 2006).

O Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais – DSM IV-TR (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2002) estabeleceu critérios clínicos para o diagnóstico desses transtornos. De acordo com o manual, os critérios para o diagnóstico da anorexia nervosa são os seguintes:

I – Recusa em manter o peso corporal, ideal ou acima do peso mínimo para a idade e altura

II – Medo intenso de ganhar peso ou tornar-se obeso, mesmo se abaixo do peso ideal

III – Distúrbio da imagem corporal

IV – Amenorréia em mulheres pós-menarca (ausência de, pelo menos, três ciclos menstruais consecutivos).

A anorexia nervosa é caracterizada pela perda de peso como conseqüência de uma dieta extremamente restritiva, busca incessante pela magreza, distorção da imagem corporal e alterações do ciclo menstrual. Os sinais clássicos decorrentes da desnutrição são: penugem fina sobre a pele, pele seca e amarelada, diminuição da pressão arterial, bradicardia, bradipnéia e inchaço de pernas e pés (BIGHETTI et al., 2007).

Para a bulimia nervosa, esta mesma instituição – DSM IV-TR (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2002) define os seguintes critérios:

I – Episódios recorrentes de compulsão alimentar, que pode ser caracterizado por: a) comer, em período de duas horas, grande quantidade de alimentos; b) sentimento de perda do controle alimentar, durante o episódio.

II – Comportamento compensatório para prevenir o ganho de peso: vômitos auto induzidos, abuso de laxativos, diuréticos, enemas ou outras drogas, jejum ou III – A compulsão alimentar e comportamentos compensatórios ocorrem duas vezes/semana, por, pelo menos, três meses.

IV – Preocupação excessiva com a forma corporal e o peso.

V – O distúrbio não ocorre exclusivamente durante episódios de anorexia nervosa.

A bulimia nervosa pode ser definida por surtos de ingestão maciça de alimentos, seguidos por comportamentos compensatórios de eliminação, por vômitos, uso abusivo de laxantes, diuréticos e atividade física excessiva. A ingestão incontrolável dos alimentos remete a sentimentos de culpa, vergonha e depressão pela falta de controle (RIBEIRO et al., 1998).

O diagnóstico diferencial para a anorexia deve excluir algumas situações como doenças gastrintestinais e consumptivas, síndrome da artéria mesentérica, quadros depressivos ou esquizofrênicos. No caso da bulimia, o diagnóstico diferencial exclui anorexia nervosa compulsivo/purgativo, depressão e distúrbios de personalidade.

Appolinário e Claudino (2000) consideram a inter-relação de fatores biológicos, psicológicos e sociais para explicar a origem e a manutenção dos transtornos alimentares.

Bighetti et al. (2007) também partem de um modelo multifatorial e citam fatores genéticos, socioculturais e familiares como responsáveis pela etiologia dos transtornos alimentares.

Cobelo (2004) acredita que, além da forma como a família organiza sua rotina alimentar, a relação que ela estabelece com a alimentação tem um papel fundamental nos riscos para o desenvolvimento dos transtornos alimentares.

Evidências preliminares indicam que padrões vinculares disfuncionais precoces na díade mãe-filho podem contribuir para a etiologia dos transtornos alimentares. Da mesma maneira, a preocupação materna quanto ao valor da forma corpórea, da atividade física e da alimentação saudável, podendo relacionar-se a tendências a controlar o consumo alimentar dos filhos, também influencia na gênese de sintomas alimentares (MORGAN; CLAUDINO, 2005).

O diagnóstico e o tratamento desses quadros, em decorrência das complicações clínicas e emocionais serem variadas e potencialmente graves, devem ser realizados precocemente por uma equipe interdisciplinar, composta por nutricionista, o psicólogo, o clinico e o psiquiatra, a fim de obter resultados mais satisfatórios. O tratamento deve envolver a unidade paciente-família e, de acordo com a modalidade terapêutica, o atendimento deve ser individual ou em grupo (BIGHETTI et al., 2007).

Segundo os autores citados anteriormente, o seguimento nutricional e a orientação alimentar ao portador de anorexia nervosa deve ter como meta a reabilitação nutricional associada à negociação constante com o paciente. O respeito aos seus limites quanto à aceitação da proposta assim como a compreensão da resistência são fundamentais no tratamento. No caso da bulimia nervosa, o seguimento nutricional e a orientação alimentar incluem o planejamento alimentar e o fracionamento das refeições.

O tratamento psicológico consiste no fortalecimento dos esquemas de autonomia pessoal e na busca pela individuação. Utiliza-se como estratégia a psicoterapia individual, a psicoterapia em grupo e a psicoterapia familiar. Recorre-se à medicação psicotrópica como fator coadjuvante no tratamento dos transtornos alimentares.

Contudo, diante de tantos desafios e complicações que se apresentam no decorrer do tratamento, se faz necessário que os profissionais respeitem as diferenças entre suas áreas, o reconheçam a importância de cada uma delas no plano de tratamento e compartilhem com a equipe as angustias advindas do desafio de colaborar na composição de uma nova história em busca da subjetivação e de um viver criativo destes pacientes.

Bibliografia

F AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM IV-TR). 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2002.

APPOLINÁRIO J. C.; CLAUDINO, A. M. Transtornos alimentares. Revista Brasileira de Psiquiatria, São Paulo, v. 22, p. 28-31, 2000. Suplemento 2.

BIGHETTI, F. et al. Transtornos alimentares: anorexia e bulimia nervosas. In: KALINOWSKI, C.E. et al. PROENF – Programa de atualização em enfermagem, saúde do adulto: saúde do adulto. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2007. p. 9-45.

BORGES, N. J. B. G. et al. Transtornos alimentares – Quadro clínico. Medicina Ribeirão Preto, v. 39, n. 3, p. 340-348, jul./set. 2006.

COBELO, A. W. O papel da família nos transtornos alimentares. In: PHILIPPI, S. T.; ALVARENGA, M. Transtornos alimentares: uma visão nutricional. São Paulo: Manole, 2004. cap 7, p. 119-129.

MORGAN C. M. ; CLAUDINO A. M. Epidemiologia e Etiologia. In: CLAUDINO A.M. et al Transtornos Alimentares e Obesidade. São Paulo: Manole, 2005. p. 15-23. (Guias de Medicina Ambulatorial e Hospitalar).

RIBEIRO, R. P. et al. Distúrbios da conduta alimentar: anorexia e bulimia nervosas. Medicina, Ribeirão Preto, v. 31, p. 45-53, 1998.

*Psicóloga. Mestre em Ciências pela Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto – EERP/USP. Coordenadora do Grupo de Apoio Psicológico aos Familiares do GRATA – HCFMRP (2008-2010).

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