Patologização do Alimentar

Camila Perez*

É muito importante podermos reconhecer o sofrimento, a dor e os prejuízos envolvidos na experiência alimentar. Muitas pessoas têm imensa dificuldade em alimentar-se, porque têm medo de engordar, ou sentem-se incapazes de parar de comer, ou por qualquer outra dificuldade que torna a alimentação – e tudo o que a envolve – uma verdadeira tortura. É reconfortante poder encarar nossos sofrimentos como legítimos, bem como encontrar lugares onde se possa tratar disso, falar e tentar entender melhor o que se passa conosco.

Reconhecer que existe uma dificuldade e que é possível cuidar dela é diferente do que estou chamando de “patologização do alimentar”. Patologizar significa desconsiderar as diversas ordens envolvidas em uma problemática (ordens sociais, culturais, relacionais, psíquicas), transformando questões não médicas – ou não somente médicas – em “doenças”, “distúrbios” e “transtornos” **.

O que quero dizer é que, quando se instaura um diagnóstico fechado e cristalizado, corremos o risco de individualizar uma questão tão ampla e que, de alguma forma, atravessa a todos. Afinal, quem nunca se sentiu envergonhado ao ir à praia ou à piscina, achando que não estava “em forma”? Quem nunca se sentiu um pouquinho culpado por comer um doce maravilhoso? Ou ainda, sentiu que deveria se sentir culpado por estar se deliciando com um belo prato de comida?

O risco ao qual chamo a atenção é, portanto, o de reduzir toda a complexidade que compõe uma dificuldade alimentar – veiculações de modelos magérrimas pela mídia, constituição da imagem corporal em meio à supervalorização da forma física, relações familiares em suas tramas e enredamentos, angústias e fantasias sempre tão singulares – a disfunções nos circuitos cerebrais que nada teriam a ver com a sociedade em que vivemos, nem com o sujeito e sua história de vida.

Não estou dizendo que não há implicações e alterações fisiológicas nessas situações, e que essas não devem ser levadas em conta. Não é isso. O problema é determinar rapidamente que a causa de questões relacionadas à alimentação, ou a qualquer outra temática, têm como ÚNICA via explicativa aspectos de ordem orgânica***.

Aqui pode surgir uma pergunta: por que isso é um problema?

Porque um diagnóstico que se encerra em si mesmo (ou seja, que pretende explicar TUDO) não deixa brechas à reflexão, esvaziando o pensamento crítico sobre si e sobre o mundo em que vivemos. Quando uma causa é determinada e fechada, ficamos presos a receitas exteriores e impossibilitados de mudarmos a nós mesmos e o nosso meio.

O que proponho é que estejamos mais abertos às perguntas que carreguem a potência do criar e do pensar, do que restritos a respostas prontas e generalistas, que nos furtam de nossas próprias experiências e afetações. Afinal, justamente no momento em que não pensamos, internalizamos, sem perceber, moldes já dados. É então que corpos veiculados como “padrão” são tomados como naturais e óbvios, levando-nos a comparações e desqualificações em relação ao nosso próprio corpo.

 

*Psicóloga e Psicanalista. Membro da CEPPAN. Mestranda em Psicologia Social pela PUC-SP. Membro da rede de atendimento do Centro de Estudos Psicanalíticos (CEP). Aprimoramento Multiprofissional em Saúde Mental.

**Definição baseada na noção de “medicalização” proposta pelo documento: CONSELHO REGIONAL DE PSICOLOGIA-SP. Manifesto de Lançamento do Fórum sobre Medicalização da Educação e da Sociedade. São Paulo, 2010.

***Ideia presente no documento: FÓRUM SOBRE MEDICALIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO E DA SOCIEDADE.Grupo de Trabalho Educação & Saúde. Recomendações de práticas não medicalizantes para profissionais e serviços de saúde e educação. São Paulo, 2012.

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