Uma leitura lacaniana sobre a obesidade

Francy Ribeiro Moreira*

 

Resenha de Sérgio de Campos, Obesidade em jovens: frustração, angústia, gula e culpa: a lógica psicanalítica do ganho de peso. Belo Horizonte, Escola Brasileira de Psicanálise, 2016, 376 p.

 

De que se trata a obesidade? Este livro descreve a pesquisa de doutorado de Sérgio de Campos, médico psiquiatra responsável pela constituição de um ambulatório específico para o tratamento de sujeitos obesos no setor de psiquiatria do Hospital Governador Israel Pinheiro-IPSEMG. Trata-se de um trabalho dedicado aos que sofrem com o peso do seu corpo, mas também com o peso dos seus problemas. Esta publicação tem como objetivo proporcionar alternativas para uma condição de vida mais saudável para os obesos.

O autor nos apresenta um paradoxo no plano epistemológico: por um lado a Organização Mundial de Saúde definiu a obesidade como a pandemia do século XXI, e por outro lado há um vazio no âmbito da clínica e um impasse terapêutico nos casos clínicos de obesidade.

A leitura de Sérgio sobreo tema se constrói sobre uma definição de Lacan dos impulsos bulímicos encontrados no Seminário 4. Lacan fala da compensação imaginária através do consumo voraz do objeto alimento causado pela frustração da demanda de amor experimentada pelo ser falante, o sujeito obeso. Leitura interessante que não reduz a obesidade a um quadro estrutural, deixando em aberto as diversas formas neuróticas e psicóticas de obesidade.

Isto ressalta a diversidade desta clínica, sendo necessário repensar as formas de intervenção. Este livro constrói uma orientação lacaniana, aplicada à terapêutica para o século XXI. Apresenta-se dividido em cinco capítulos.

No capítulo I, “Psicanálise aplicada à medicina – uma clínica de interface”, Sérgio de Campos descreve com maestria a diferença entre dois saberes: a medicina e a psicanálise. Na medicina, suspende-se a subjetividade para operar sobre o corpo físico e na psicanálise convoca-se o sujeito que fala sobre o seu corpo. A teoria lacaniana sobre o corpo introduziu uma dialética entre o saber médico e o psicanalítico. O ato médico responde à necessidade do corpo, ao estudo de um fenômeno físico. Já a psicanálise possui uma escuta sensível acerca do inconsciente do sujeito.

Outra dimensão das diferenças entre esses campos de saber reside na moral e na ética. Na ética médica, tem-se um corpo de regras que assiste o indivíduo no coletivo, organiza os ditames médicos que têm por finalidade canalizar os esforços terapêuticos para findar os sofrimentos advindos de uma enfermidade. Na psicanálise, considera-se o “falasser”, ou seja, o sujeito que fala sobre o seu corpo. Este sujeito deve responsabilizar-se sobre suas escolhas, seus atos.

Ainda sob a ótica dos dois saberes, Sérgio faz uma análise sobre o conceito de corpo. Hipócrates foi o primeiro a se debruçar sobre o corpo da medicina, para estudá-lo como um corpo decomposto pela anatomia patológica. A visão da psicanálise obviamente é outra. Para o autor, Lacan definirá o corpo como imaginário, sustentando na imagem corporal, depois como simbólico pleno de significante e significado e por fim, como real na condição que goza.

Trata-se de um corpo pulsional nos três registros lacanianos. Corpo da pulsão como um conceito entre o somático e o psíquico, que pertence ao mundo interior. Esse é o corpo da psicanálise. Por exemplo, enquanto a medicina trata a obesidade como doença do corpo, a psicanálise investiga o sentido da compulsão. A medicina estuda o ganho de peso, a psicanálise escuta as razões pelas quais o sujeito come em demasia. Trata-se de implicar o sujeito em relação ao seu sintoma.

Ao final do capítulo Sérgio de Campos faz uma crítica interessante à medicina “prêt-à-porter”. Termo que deriva do mundo da moda, e significa “pronto para consumir”. Uma medicina de produtos fabricados em série, destinados a um consumo em larga escala se contrapondo a uma medicina artesã, com anamnese, com uma boa clínica médica onde o sujeito esteja implicado. Sérgio tem a generosidade de expor com clareza os seus fundamentos.

Em seguida, no capítulo II, “O universal da obesidade e o singular da subjetividade”, o autor discorre sobre os dados estatísticos da obesidade e sobre como organizou sua tese de doutorado. Trabalho complexo que reflete sobre a técnica psicanalítica aliada à medicina para um possível tratamento dos quadros de obesidade.

A Organização Mundial da Saúde reconhece a obesidade como uma epidemia. Segundo a Federação Mundial do Coração, 1,1 bilhão de adultos e 22 milhões de crianças no mundo são obesos. É alarmante! Mesmo no Brasil, um país sujeito à desnutrição, de acordo com a Sociedade Brasileira de Endocrinologia, a obesidade aumentou 240% nos últimos vinte anos. São cerca de 6,7 milhões de crianças e adolescentes obesos no país.

Sérgio relata que a medicina deixa de considerar os fatores emocionais como desencadeadores da compulsão alimentar e da manutenção da obesidade. Apesar dos saltos científicos da medicina, a obesidade permanece como um relevante problema clínico. Sob o ponto de vista deste trabalho a obesidade se constitui mediante uma tríplice incidência causal: biológica, social e psíquica. Importante ressaltar que quando a ciência dispensa a subjetividade ao lidar com casos de obesos, ela falha no tratamento.

Neste ponto reside uma possível articulação entre a psicanálise e medicina. Ao invés de lançar mão de medidas extremas do tipo da cirurgia bariátrica como forma de tratamento, que, em muitos casos apresenta complicações, e não resolve todo o problema, os médicos poderiam encaminhar os pacientes para um processo analítico. Incluir a psicanálise aplicada à terapêutica nos casos de obesidade.

A ideia nuclear da tese de Sérgio de Campos é estudar o fenômeno da obesidade a partir de uma experiência de doze anos acompanhando obesos e constatando os inúmeros traumas psíquicos desses pacientes. Situações de abandono, luto, separação, fixação na fase oral, superego imperativo são determinantes para o ganho de peso. A psicanálise é o método de investigação no trabalho deste experiente médico.

A delimitação do problema de investigação veio condensada sob a forma da seguinte pergunta: “por que os jovens sem história de obesidade familiar, de capacidade cognitiva e intelectiva perfeita e sem um perfil genético são incapazes de seguir orientações dietéticas elementares, que lhes favoreceriam a perda de peso, o emagrecimento e a vida saudável?”. Para responder a essa questão foi formulada a hipótese de que esses sujeitos ficariam fixados numa fase psíquica muito primitiva, descrita por Freud, como fase oral. O alimento também estaria sempre associado aos afetos de amor, de ódio, raiva, frustração, de culpa, compulsão e tantos outros. Evidentemente foi preciso analisar fragmentos clínicos para extrair o que cada paciente tem de essencial para acessar o inconsciente. Analisar o “falasser”.

Esse é o convite do capítulo III, “Fragmentos de narrativas ficcionais”. Escutar os jovens obesos do ponto de vista psicanalítico, com foco na subjetividade e singularidade dos seres falantes. Para resguardar a identificação desses sujeitos, o que será exposto no capítulo não são relatos completos, mas sim frações nucleares retiradas dos casos atendidos pelo autor nos últimos anos. Como diz Sérgio: “verdadeiras pérolas da experiência”.

Ao relatar um dos casos clínicos, o autor assinala como a pulsão oral domina o falasser e como a compulsão de comer ocupa o lugar da palavra. A jovem diz: “A vontade de comer me domina. Como para não falar, como sem fome. É como cair numa armadilha, numa ratoeira”. O termo ratoeira – armadilha com pedaço de queijo para atrair a presa, evidencia o mecanismo do engano superegoico em que o ser falante se prende, submetido a gula.

Importante salientar que os jovens que participaram desta pesquisa foram submetidos ao processo analítico que possibilita a retificação subjetiva, a qual libera as pulsões fixadas para possibilitar novas simbolizações.

Em muitos casos de obesidade há relatos de um comer em demasia, sem um limite. Sérgio explica esse fato com o conceito de afânise. Conceito introduzido por Ernest Jones que significa a eliminação do desejo sexual decorrente de temor da castração. Lacan faz uma releitura do termo ao deslocá-lo de afânise para fading. O fading de Lacan significa o desaparecimento do desejo, o apagamento do sujeito quando este lança mão da alienação para escapar à castração a que todos estão sujeitos. Com o fading não há responsabilidade no ato da gula.

O capítulo IV sobre “Os caminhos da pulsão e seus objetos”, trata-se de um texto mais teórico onde Sérgio discorre sobre a noção de imagem corporal relacionada ao período de “estádio do espelho” de Lacan. Apresenta também a diferença entre os conceitos de necessidade, demanda e desejo. A importância da pulsão oral e seus objetos na obesidade, do superego comandando a gula, tudo muito bem articulado conforme a teoria psicanalítica lacaniana.

O autor relata que alguns obesos mórbidos que emagreceram após a cirurgia bariátrica continuam a se verem gordos no espelho. Isso é resultado de uma distorção na imagem corporal. Paradoxo que surge porque há uma falha especular na qual o sujeito não se sente investido como objeto de narcisismo da mãe, designando um não reconhecimento de si. Isso poderia ter sido trabalhado pela psicanálise, antes do procedimento cirúrgico.

O ser falante obeso poderá usar a obesidade como estratégia para compensar perdas, para lidar com a castração, com a angústia, enfim, funções que caracterizam essa obesidade como um grave sintoma observado tanto sob o ângulo da neurose, psicose ou perversão, o que implica intervenções específicas a cada subjetividade.

O último capítulo intitula-se “Alimentação e civilização”. Nele, o autor versa de forma primorosa sobre a alimentação e obesidade, desde a pré-história até os dias de hoje. A comida é marca da incidência antropológica e histórica na cultura. É curioso assinalar que não há obesidade na natureza, apenas na cultura, ou seja, em seres humanos ou em animais que foram domesticados. A obesidade está presente desde os tempos primevos, junto com a história da alimentação. Outrora, a obesidade encarnava abundância, designava riqueza e saúde.

Este é um capítulo que também relata a história do alimento se imbricando com a história das religiões. O jejum foi uma medida de purificação e a gula considerada um pecado capital. Na Idade Média até a Modernidade, saudável era quem comia muito. Na Revolução Francesa, a função do alimento tornou-se terapêutica e teve seu apogeu na invenção dos restaurantes. Apenas no início do século XIX que apareceram as primeiras considerações médicas sobre a causa da obesidade. No fim do século XIX inicia-se a crítica aos obesos que se tornaram objeto de estigma.

No século XX tinha-se um mundo delimitado, com papéis definidos na família, na sociedade e na religião. Com as guerras mundiais o mundo preocupou-se com a penúria alimentar. As pessoas passaram a consumir alto valor calórico. Desde os anos 1950, o colesterol e o açúcar se tornaram grandes vilões da alimentação. No mundo contemporâneo a alimentação e a obesidade obtiveram um novo significado. Surgiram os alimentos congelados, enlatados, os fast-foods, o self-service, o consumo, o capitalismo, as dietas, o corpo perfeito e a ilusão de felicidade, enfim, inúmeras mudanças. Uma nova clínica de homens pós-modernos, nos quais a adição é uma das tônicas fundamentais. Falasseres precários em elaborações subjetivas, que no silêncio da pulsão de morte, denotam alterações de comportamento, como atuações e passagem ao ato.

Nas considerações finais, Sérgio reafirma que a obesidade é uma doença complexa que envolve aspectos biológicos, culturais e subjetivos. Também confirma a presença de um ciclo vicioso característico dos casos de ganho de peso, composto por uma tétrade fundamental: frustração – angústia – gula – culpa.

Por fim, outro mérito do livro é o estímulo para mais pesquisas sobre a problemática dos transtornos alimentares.

 

* Psicanalista pelo Instituto Sedes Sapientiae de São Paulo e Mestre em Psicologia Clínica pela UNESP Assis-SP.

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